De um lado, temos a Organização Mundial da Saúde afirmando que a depressão já é “a principal causa de problemas de saúde e incapacidade em todo o mundo”. De outro, uma das enfermidades que mais afasta professores das salas de aula: a mesma depressão. Coincidência?

Não se pode ensinar matemática sem saber matemática. Com saúde mental é a mesma coisa. Queremos avançar rumo a uma sociedade mais equilibrada e feliz? Sim. É possível fazer isso sem a expressiva participação dos profissionais de ensino? Não. Ok, então vamos olhar mais de perto como está a saúde de educadoras e educadores.

Estudos em diferentes países apontam que o trabalho docente tem o estresse como um elemento intrínseco à profissão1. Além da demanda diária de planejamento, organização e avaliação, tal atividade exige habilidades de manejo da atenção e da emoção, normalmente negligenciadas tanto na formação quanto na capacitação continuada de professores e professoras. Essa negligência tem seu preço. A literatura aponta vários prejuízos associados ao estresse docente. Entre eles estão os agravos à saúde física, a desistência do trabalho, baixas na eficiência pedagógica e oneração de cofres públicos com o afastamento desses profissionais2-6.

No Brasil, a docência é a profissão em que mais se estuda a Síndrome de Burnout, uma modalidade de estresse ocupacional caracterizada por desgaste excessivo7. A literatura nacional aponta relevantes prejuízos à saúde física e psicológica docente e que são associados à condição de estresse laboral8–11.  O ambiente escolar brasileiro apresenta nítida carência de programas que ofereçam alternativas de prevenção e promoção da saúde como um contraponto a esse tipo de esgotamento11–13.

E nossa juventude, como está? O "Jogo da Baleia Azul" e a série "13 Reasons Why" são enormes sinais de alerta. As estatísticas apresentadas pela Organização Mundial da Saúde,  que lançou a campanha "Prevenção ao suicídio: uma necessidade global", são claras: "o suicídio é a segunda principal causa de morte entre as pessoas entre 15 e 29 anos de idade".

Assim fica mais fácil entender, por exemplo, o papel das doenças mentais e comportamentais nos afastamentos do ambiente de trabalho brasileiro.  Hoje elas são "a terceira causa de incapacidade para o trabalho", segundo dados da Previdência Social. Estamos num ciclo vicioso que alimenta o desequilíbrio mental na sociedade. Certamente há muitos outros fatores envolvidos nesse processo, mas a relação educadores fragilizados, fragilizando, via exemplo de conduta, crianças e jovens, que serão os adultos fragilizados de amanhã, é uma questão-chave nisso.

Temos como missão do Projeto Social Escola do Presente contribuir para uma sociedade mais atenta e feliz. Para isso, nossa principal estratégia é agir na promoção da saúde entre educadores do ensino público, por meio das práticas de mindfulness. Entendemos que essa é uma maneira efetiva de transformar este ciclo, vicioso, em outro, virtuoso: educadores saudáveis promovendo saúde e equilíbrio para crianças e jovens que serão os adultos saudáveis de amanhã.

E não estamos sozinhos nesta empreitada. A comunidade científica tem dado cada vez mais atenção às intervenções baseadas em mindfulness (IBMs) na promoção da saúde docente. Entre os benefícios encontramos maior regulação emocional e tolerância ao estresse, melhora de sintomas físicos, empatia, atenção e gestão de sala de aula2,14. Tais benefícios encorajaram um financiamento de $ 3,5 milhões (mais de R$ 10 millhões), nos Estados Unidos, para aprimorar um programa baseado em mindfulness específico para educadores do ensino básico15. Outro exemplo é a política pública em vigor no Reino Unido, que além da educação, também incentiva a pesquisa e a implantação das IBMs em outros três pilares sociais: nas corporações, no sistema judiciário e também na área da saúde. Apenas para a área da educação, a sugestão de investimento do parlamento inglês é de  £1 milhão por ano (mais de R$ 4 milhões)16.

O Projeto Social Escola do Presente acredita na educação, nos educadores e em mindfulness. Estamos com a mão na massa para a construção de uma sociedade mais saudável, atenta e feliz!

 

FONTES:

1. Carlotto, M. S. et al. O papel mediador da autoeficácia na relação entre a sobrecarga de trabalho e as dimensões de Burnout em professores. Psico-USF 20, 13–23 (2015). Recuperado de: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-82712015000100003&lng=pt&nrm=iso&tlng=en

2. Taylor, C. et al. Examining Ways That a Mindfulness-Based Intervention Reduces Stress in Public School Teachers: a Mixed-Methods Study. Mindfulness (N. Y). No Pagination Specified-No Pagination Specified (2015). doi:10.1007/s12671-015-0425-4 Recuperado de: http://link.springer.com/10.1007/s12671-015-0425-4

3. Jennings, P. A. Mindfulness for Teachers: Simple Skills for Peace and Productivity in the Classroom. (W. W. Norton, 2015).

4. Jennings, P. a. & Greenberg, M. T. The Prosocial Classroom: Teacher Social and Emotional Competence in Relation to Student and Classroom Outcomes. Rev. Educ. Res. 79, 491–525 (2009). Recuperado de: http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.3102/0034654308325693

5. Roeser, R. W., Skinner, E., Beers, J. & Jennings, P. A. Mindfulness Training and Teachers’ Professional Development: An Emerging Area of Research and Practice. Child Dev. Perspect. 6, 167–173 (2012). Recuperado de: http://doi.wiley.com/10.1111/j.1750-8606.2012.00238.x

6. Levy, G. C. T. de M., Nunes Sobrinho, F. de P. & Souza, C. A. A. de. Síndrome de Burnout em professores da rede pública. Produção 19, 458–465 (2009). Recuperado de: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65132009000300004&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

7. Cardoso HF, Nunes Baptista M, Francioni D, De Sousa A, Júnior EG. Síndrome de burnout: Análise da literatura nacional entre 2006 e 2015. Rev Psicol Organ e Trab. 2017;17(2):121–8. Recuperado de: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/rpot/v17n2/v17n2a07.pdf

8. de Oliveira, L. R. & Leite, J. R. O perfil da saúde dos educadores: evidenciando o invisível. Retratos da Esc. 6, 463–477 (2012). Recuperado de: http://www.esforce.org.br/index.php/semestral/issue/view/15

9. Andrade, P. S. de & Cardoso, T. A. de O. Prazer e dor na docência: revisão bibliográfica sobre a Síndrome de Burnout. Saúde e Soc. 21, 129–140 (2012). Recuperado de: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902012000100013&lng=pt&nrm=iso&tlng=en

10. Diehl, L. & Marin, A. H. Adoecimento mental em professores brasileiros: revisão sistemática da literatura. Estud. Interdiscip. em Psicol. 7, 64–85 (2016). Recuperado de: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/eip/v7n2/a05.pdf

11. Silveira, K. A., Enumo, S. R. F., Paula, K. M. P. de & Batista, E. P. Estresse e enfrentamento em professores: uma análise da literatura. Educ. em Rev. 30, 15–36 (2014). Recuperado de: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-46982014000400002&lng=pt&nrm=iso&tlng=en

12. Diehl, L. & Carlotto, M. S. Conhecimento de professores sobre a síndrome de burnout: processo, fatores de risco e consequências. Psicol. em Estud. 19, 741–752 (2014). Recuperado de: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722014000400741&lng=pt&nrm=iso&tlng=en

13. Dalagasperina, P. & Monteiro, J. K. Preditores da síndrome de burnout em docentes do ensino privado. Psico-USF 19, 263–275 (2014). Recuperado de: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-82712014000200009&lng=pt&nrm=iso&tlng=en

14. Felver, J. C. & Jennings, P. A. Applications of Mindfulness-Based Interventions in School Settings: an Introduction. Mindfulness (N. Y). 7, 1–4 (2016). Recuperado de: http://link.springer.com/10.1007/s12671-015-0478-4

15. INSTITUTE OF EDUCATION SCIENCES. Improving Classroom Learning Environments by Cultivating Awareness and Resilience in Education (CARE): A Cluster Randomized Controlled Efficacy Trial. Disponível em: https://ies.ed.gov/funding/grantsearch/details.asp?ID=1233

16.  MAPPG. Mindful Nation UK. The Mindfulness Initiative. 2015. Recuperado de: http://themindfulnessinitiative.org.uk/images/reports/Mindfulness-APPG-Report_Mindful-Nation-UK_Oct2015.pdf

2 comentários sobre “Saúde Docente para uma Sociedade Saudável

  • Vera silveira

    Parabéns Marson!!!
    Que maravilha!
    Um abraço

    Responder

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