As práticas de mindfulness são popularmente conhecidas como “a ginástica da atenção”. Para entender melhor como elas funcionam, vamos começar pelo seu estado mental oposto, ou seja, a desatenção.

Desatenção

Você já esqueceu o que comeu minutos depois de finalizar uma refeição, ou procurou desesperadamente pelo molho de chaves que estava guardadinho do bolso, junto ao seu corpo?

Caso tenha respondido “sim”, você sabe bem o que quer dizer a palavra “desatenção”. A mente fica ocupada com alguma tarefa futura, lembrança do passado, ou mesmo perdida no mundo do imaginário, enquanto executamos as tarefas no estado que chamamos de “piloto automático”.

Viver obsessivamente no “piloto automático” traz diversos prejuízos. Além de diminuir a eficiência na execução de tarefas, a desatenção desenfreada é frequentemente associada a estados prolongados de ansiedade (pensamentos sobre o futuro) e depressão (pensamentos sobre o passado). No Brasil, as doenças mentais e comportamentais ocupam o terceiro maior motivo  de afastamento do ambiente de trabalho1. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a depressão já é “a principal causa de problemas de saúde e incapacidade em todo o mundo”. A atrofia da habilidade que mantém a mente no momento presente cobra um preço alto de nossa sociedade: o sofrimento.

Mesmo em pessoas consideradas saudáveis, a distração pode apresentar efeitos duradouros e indesejáveis. Pesquisadores da Universidade de Harvard estudaram 2.250 pessoas e concluíram que somos mais infelizes quando estamos distraídos. Além disso, a pesquisa indicou que estado de distração ocupa aproximadamente 50% do nosso tempo2.

“A mente humana é uma mente dispersa, e uma mente dispersa é uma mente infeliz”

Matthew Killingsworth e Daniel Gilbert, pesquisadores da Universidade Harvard

Os programas de mindfulness são alternativas na direção oposta à desatenção. Eles são didaticamente estruturados para fortalecer a capacidade de permanecermos atentos de momento a momento. Seja no trabalho, caminhando pela rua ou até na fila do banco, práticas específicas nos permitem ficar mais presentes e até mais felizes. Os acontecimentos externos podem seguir inalterados, mas a mudança de perspectiva em relação a eles faz toda a diferença.

Mindfulness e Autoconhecimento

Por autoconhecimento estamos considerando, aqui, o conhecimento que uma pessoa tem das relações entre seus pensamentos, emoções, sensações físicas e comportamentos. Quanto mais uma pessoa conhece a maneira pela qual esses seus quatro componentes interferem entre si e com o ambiente externo, mais ela se autoconhece.

Exercitar o estado de atenção plena é treinar a mente para que ela observe, de momento a momento, processos externos e internos. Esses últimos geralmente passam despercebidos nós.

Mindfulness e Autocuidado

De maneira geral, o conhecimento externo nos leva a ter maior cuidado com o que acontece fora de nós. Sabendo que uma faca está afiada, é quase instintivo manuseá-la com cuidado para evitar acidentes.

Com o autoconhecimento acontece a mesma coisa. Exemplo: ao perceber que pensar (mente) obsessivamente numa discussão com a minha esposa me torna mais irritadiço (emoção) no trabalho, e isso me torna desnecessariamente rude com as pessoas (comportamento), eu posso escolher prestar atenção na tarefa que estou desempenhando ao invés de continuar pensando sobre a discussão. Perceba que, para mudar meu comportamento rude, minha estratégia foi deslocar o foco de atividade mental: sair da distração para dar mais atenção ao que eu estava fazendo. É um tipo de estratégia de autorregulação ou autocontrole, que só é possível na medida em que tenho um repertório de autoconhecimento.

Podemos resumir o mecanismo do treinamento de mindfulness da seguinte maneira:

 

Mindfulness e Treinamento

Entretanto, nem tudo são flores. Existem aqui duas dificuldades básicas:

  • Não perceber em que estou pensando ou sentido (estado de “piloto automático”);
  • Não conseguir reduzir a força de pensamentos obsessivos e prestar mais atenção naquilo que estou fazendo.

As práticas de atenção plena exercitam essas duas habilidades. Diferentes atividades, muitas delas realizadas durante tarefas cotidianas (tomar banho, escovar os dentes, caminhar etc) permitem fortalecer nossa capacidade de estar presente para o que acontece dentro e fora de nós. Não é diferente de aprender um novo esporte, uma nova língua ou a tocar um instrumento musical: disciplina, regularidade e tempo de prática, quando bem combinados, produzem maravilhas. Não há pílula mágica, mas sim um treinamento eficiente!

Atenção Plena e Emoção Plena

Por fim, um elemento essencial da atenção plena é a “emoção plena”. Em inglês se fala de mindfulness (mind – mente) e heartfulness (heart – coração).

Pensamentos e emoções estão intimamente ligados, ainda que por vezes nos pareça o contrário. Entre as particularidades deste estado psicológico está a gentileza, a compaixão, a amorosidade ou como queira chamar.

Novamente, tais habilidades são exercitadas tanto em relação aos processos internos quanto externos.

Internamente, considere por exemplo a observação da natureza preconceituosa da mente. Ela pode vir carregada de uma culpa que aumenta nosso desconforto de maneira não funcional, sempre que aquele pensamento “politicamente incorreto” aparece. Nos sentimos mal em relação a nós mesmos, mas os pensamentos preconceituosos continuam lá. Vira e mexe eles aparecem. Quando a autogentileza é aplicada na medida certa (não vamos confundi-la com a conivência), somos capazes de continuar observando e aprendendo sobre nosso próprio preconceito. Uma criança aprende a usar uma colher depois de observá-la exaustivamente. Da mesma maneira, uma dose apropriada de autogentileza permite observar, pela experiência direta, as contradições, conclusões rasas e ilusões ocultas em comportamentos mentais preconceituosos. Esse repertório de conhecimento enfraquece drasticamente a força do preconceito ao longo do tempo, pois cada vez que aparece, ele também traz à tona suas indissociáveis inclinações sem sentido. Sem a autocompaixão corre-se o risco de cair em processos de autocondenação ineficientes, tanto para o nosso bem-estar quanto para a mudança de postura mental.

No mundo externo, a emoção plena é igualmente poderosa. Ela nos permite perceber como somos semelhantes. Como temos as mesmas tendências de buscar o conforto e nos afastar do sofrimento. Mais que isso, esse estado de atenção compassiva pode nos impelir à ação. Acolhemos pessoas em aflição pelo simples fato de poder aliviá-las do sofrimento. Porque já fomos aliviados e sabemos como isso é bom. Temos mais paciência com uma pessoa imatura, porque sabemos que outros foram tolerantes com a nossa imaturidade, em momentos que não havia mais nada a fazer. Ajudamos a curar a ferida que já doeu em nós mesmos, numa atitude profundamente humana e civilizada. As raízes da tolerância, do altruísmo e da colaboração pró-social estão na natureza compassiva da mente.

É comum dizermos que atenção plena e emoção plena são como as duas asas de um pássaro. As práticas de mindfulness nos ajudam a cultivar ambas!

Em síntese, quando praticada com cuidado, o treinamento da atenção plena é um exercício que permite desenvolver inúmeras habilidades interessantes. Mais que uma técnica de fortalecimento da atenção, mindfulness permite ampliar nossa capacidade de aprender, amar e se relacionar com a vida de momento a momento.

 

FONTES:

1. Dados divulgados pelo governo federal no Boletim Quadrimestral sobre Benefícios por Incapacidade em abril de 2017. Disponível em: http://www.previdencia.gov.br/wp-content/uploads/2017/04/1%C2%BA-boletim-quadrimestral.pdf

2. Killingsworth MA, Gilbert DT. A Wandering Mind Is an Unhappy Mind. Science. 2010 ;330:932–932. Recuperado de: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21071660

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